Literatura & MPB

 

Hey, sonhadores! ❤️

O post de hoje é sobre dois contos que são referenciados em músicas brasileiras. Os contos selecionados são O Rouxinol e a Rosa, de Oscar Wilde, & A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa.

 

1- O Rouxinol e a Rosa, de Oscar Wilde

O conto faz parte do livro “Histórias de fada”, de Oscar Wilde, publicado em 1888.

Começa com o Rouxinol ouvindo o Estudante lamentar por não haver uma rosa vermelha no jardim para entregar à jovem amada e, por conseguinte, não conseguir dançar com ela no baile do Príncipe. O Rouxinol acredita que está diante de um rapaz apaixonado, e que o casal está enamorado. O pássaro decide agir em prol dos amantes. Voa até a Roseira e fala: “se me der uma rosa vermelha, eu canto para você minha mais doce canção” (p. 55). Como a narrativa se passa no inverno, a Roseira diz que não tem como lhe dar nenhuma rosa. Ele fica desalentado, mas a Roseira diz que há uma solução para esse problema: o Rouxinol terá que doar seu canto e seu coração (ou seja, seu sangue) para que ela consiga florescer uma única rosa.

O conto, para mim, tem um sabor agridoce. É um ótimo texto, mas a minha questão não é o Rouxinol ofertar sua vida em nome do Amor, mas o que sucede a essa ação voluntária. Óbvio que é isso que faz os leitores refletirem essa prosa por muito tempo. Ainda assim, causa-me um grande dissabor — o sacrifício a troco de quê? Recomendo a leitura de O Rouxinol e a Rosa? Claro que sim.

Há uma música brasileira, composta por Hebert Vianna, que capta bem o teor da narrativa. Sim, é cantada pela banda de rock nacional Os Paralamas do Sucesso. O título da canção é homônimo do conto. Amo essa música. Para mim, o mais curioso é a antítese entre melodia e letra. A melodia é animada, pois está vinculada ao amor que o Rouxinol acha que, enfim, está presenciando. Já a letra, é a síntese da história e expressa, na terceira estrofe, a melancolia que fica no leitor após a leitura — o fim não é romântico como parece, assim como a música não é alegre. Que canção perfeita!

 

 

2- A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa

O conto faz parte do livro “Primeiras estórias”, de Guimarães Rosa, publicado em 1962.

O pai do narrador era “homem cumpridor, ordeiro, positivo” (p. 79); era quieto, na dele. Um dia mandou fazer uma canoa para si, que só cabe o remador. Quando ficou pronta, o pai decidiu ir sem dizer palavras, sem levar nada (além da roupa do corpo e o chapéu). A esposa, não concordando com a situação, mas sem saber o que fazer, diz “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” (p. 80). O filho pede para ir com ele, mas o pai “me botou a bênção, com um gesto me mandando para trás” (p. 80). Vizinhos e familiares acharam que, para ter tal atitude, o homem estivesse com alguma doença e não queria que ninguém soubesse.

A verdade: não é explicitado o porquê o pai decide tornar a canoa seu lar, mas entendemos que, apesar de não ir a nenhum lugar, a vagar nas águas, ele se torna a terceira margem do rio. Apesar dessa situação, a vida da família prossegue. A distância (a falta) do pai afeta o narrador, porque, mesmo envelhecido, é o único que continua no local. A ausência (de palavras) do pai e o murmúrio do rio perpassam toda a narrativa. Os murmúrios seriam as palavras não ditas do homem? Também percebemos o mistério, como no trecho: “ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. [...] Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado” (p. 84-85). Ou seja, a terceira margem representa o entrelugar: nem aí, nem lá; nem perto, nem longe; nem vivo, nem morto.

A música brasileira, também homônima do conto, foi composta por dois divos da MPB: Milton Nascimento e Caetano Veloso. Este escreveu a letra em cima da melodia que Milton fez. Que parceria! A interpretação de Caetano da obra é esplêndida, pois exprime a poética e o mistério presentes no conto. Tanto na canção como no conto, o silêncio do pai e as vozes do rio também podem ser interpretados como a terceira margem do rio.

Ademais, para ampliar nossa interpretação de A terceira margem do rio, recomendo a aula de José Miguel Wisnik e a leitura do artigo Um mergulho discursivo sobre A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa, de Carlos Augusto Baptista de Andrade e Diogo Souza Cardoso.

 


Este post não encerra a discussão dos dois contos. Contudo, é um convite para aprofundarmos nossa leitura e interpretação de cada um deles. Um abraço e até o próximo post! o/

 

 

 

 

Referências:

GUIMARÃES ROSA, João. Primeiras estórias. 15. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

WILDE, Oscar. Histórias de fadas. Tradução: Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

 

 

 

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Comentários

  1. Alguém que compartilha minha revolta pela prematura perda do Rouxinol. O amor jamais deve exigir sacrifícios.

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    1. Achei que eu era a única pessoa que ficou revoltada com o final do Rouxinol. Certa vez me deram uma perspectiva positiva do conto, mas fiquei "tá, mas o Rouxinol não deveria ter passado por isso".

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