O futuro é ancestral



Hey, sonhadores! ❤️

O centésimo post deste blog coincide com a proximidade do Dia dos Povos Indígenas (19). Para refletirmos a importância dos povos originários, nada melhor do que o livro Futuro ancestral, de Ailton Krenak, publicado pela Companhia das Letras. São cinco textos organizados por Rita Carelli.

Em Saudação aos rios, Krenak fala da importância dos rios para a vida, pois “nos dá comida, e essa água maravilhosa amplia nossas visões de mundo e confere sentido à nossa existência”. O rio tem corpo e se comunica, mas, em nome do progresso, destruímos o corpo e silenciamos a sua comunicação. A questão é que os rios “urbanos” agora são esgotos — o rio continua e continuará sendo rio, mas o corpo que nos alimenta está poluído. Os rios estão sendo mutilados por conta de mineração, madeireiras, garimpos, apropriação indevida da natureza, entre outros fatores. Consecutivamente, os biomas estão flagelados. Se continuar assim, estamos fadados a acabar com nossa própria existência.

Em Cartografias para depois do fim, como existem várias histórias da criação do mundo, Krenak nos propõe “imaginar cartografias, camadas de mundos, nas quais as narrativas sejam tão plurais que não precisamos entrar em conflito ao evocar diferentes histórias de fundação”. Além disso, explicita que “nas narrativas de mundo onde só o humano age, essa centralidade silencia todas as outras presenças”. É necessário que tenhamos o olhar crítico: não devemos celebrar “a necropolítica sobre a vida plural dos povos deste planeta”. Ou seja, devemos criar uma cartografia afetiva em que haja confluências entre os povos e a natureza.

Em Cidades, pandemias e outras geringonças, inicia o texto, criticando o uso de telas, que cria a ilusão de resultado, eficácia, mas não movemos nada, transformando-nos, a médio-prazo, em espectadores. Também salienta que estamos tão dependentes de maquinários como nossa extensão a ponto de seguirmos “no piloto automático, devorando o planeta com fúria”. As cidades funcionam como plataforma do capitalismo e constituem “como o único destino possível dos humanos”. Qual o destino de quem não vive nos centros urbanos? Além disso, o conceito de indivíduo está sendo substituído por consumidor (alguns poucos, claro, são preferenciais na sociedade capitalista). Se continuar assim, construiremos muros ao redor da natureza? Tudo que não for urbano pode ser eliminado? E nos convida à reflexão: “como reconverter o tecido urbano industrial em tecido urbano natural, trazendo a natureza para o centro e transformando as cidades por dentro?”

Em Alianças afetivas, distingue dois conceitos: o de cidadania que está na Declaração Universal dos Direitos do Homem; o de florestania que está atrelado à Aliança dos Povos da Floresta — que reivindicava o direito e a igualdade de quem vive na floresta. Krenak foi um dos fundadores, mas percebeu que alianças afetivas são a chave, pois

pressupõe afetos entre mundos não iguais. Esse movimento não reclama por igualdade, ao contrário, reconhece uma intrínseca alteridade em cada pessoa, em cada ser, introduz uma desigualdade radical diante da qual a gente se obriga a uma pausa antes de entrar: tem que tirar as sandálias, não se pode entrar calçado.

Nesse conceito, cada pessoa faz parte de “um fluxo capaz de produzir afetos e sentidos”. É um convite para pensarmos e nos abrirmos para a pluralidade de culturas. Ademais,

os povos originários têm outras contribuições ao debate, tanto sobre a pólis quanto sobre as ideias de natureza, ecologia e cultura. Se formos capazes de nos abrir a toda essa riqueza, a atividade política será mais uma dimensão da existência, e não uma ocupação predatória, como tem sido para muitos políticos do século XXI, o século do neoliberalismo, cuja invenção só tem servido para aparelhar corpos e constituir servidão.

Em O coração no ritmo da terra, afirma: “o futuro não existe — nós apenas o imaginamos”. Em outras palavras, não devemos nos preocupar com o porvir, mas em vivenciar o agora. Para tal, devemos nos confundir com a natureza, de nos entender como extensão de tudo, ter a experiência do sujeito coletivo, pois somos filhos da terra e devemos tratar de

sentir a vida nos outros seres, numa árvore, numa montanha, num peixe, num pássaro, e se implicar. A presença dos outros seres não apenas se soma à paisagem do lugar que habitamos, como modifica o mundo. Essa potência de se perceber pertencendo a um todo e podendo modificar o mundo poderia ser uma boa ideia de educação. Não para um tempo e um lugar imaginários, mas para o ponto em que estamos agora.

Para Krenak, como os humanos estão interligados à natureza, as crianças deveriam ter uma experiência de fricção (contato) com a terra, pois o letramento prescinde a sala de aula. Como não é possível para crianças não indígenas, que os adultos possam

pelo menos deixá-las em segurança contemplando os próprios pensamentos — que, com certeza, são luminosos e chegaram ao mundo trazendo maravilhas —, sem bombardeá-las com argumentos. As crianças irão se associar então a esses belos pensamentos de maneira criativa e positiva e serão as portadoras, aqui na Terra, da ancestralidade, um presente que os recém-chegados trazem para nós.

Ademais, ficou alegre por Papa Francisco ter dito que é necessário o resgate de vínculos com a ancestralidade, pois essa fala “contribui para dissolver fronteiras culturais e raciais, e para que a gente possa falar de uma maneira mais respeitosa da diversidade cultural e da pluralidade da vida. Essas ideias deveriam orientar todo o repertório de quem trabalha com educação”. Também pontua que as crianças indígenas respeitam os mais velhos, assim como anseiam seus saberes e se tornarem mais velhas. A conclusão do texto nos faz questionar como estamos ensinando as crianças (para vencerem ou para compartilharem?):

As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedoras, pois para uns vencerem outros precisam perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida em que o indivíduo conta menos que o coletivo. Esse é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. O que as nossas crianças aprendem desde cedo é a colocar o coração no ritmo da terra.

 

Krenak tece críticas à forma como a natureza é tratada por nós não indígenas e, principalmente, pelo capitalismo neoliberal que vivenciamos. Ao terminarmos a leitura, percebemos que o futuro, na verdade, está na ancestralidade: a nossa existência depende e está interligada ao todo. Somos uma parte da Terra, não existe o homem sem a natureza. O que salvará o nosso futuro enquanto humanidade é o resgate e o conhecimento das ancestralidades — no plural, por conta da multiplicidade de culturas. Futuro ancestral nos propõe muitas reflexões, e recomendo a leitura para debatermos sobre esse assunto. Já leram esse livro ou outro de Ailton Krenak? Comentem para trocarmos ideia. Um abraço e até o próximo post! o/

 

 

 

 

 

Referência:

KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

 

 

 

 

“Se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui.”

 

 

 

 

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