O futuro é ancestral
Hey, sonhadores!
O
centésimo post deste blog coincide com a proximidade do Dia dos Povos
Indígenas (19). Para refletirmos a importância dos povos originários, nada
melhor do que o livro Futuro ancestral,
de Ailton Krenak, publicado pela Companhia das Letras. São cinco textos
organizados por Rita Carelli.
Em Saudação
aos rios, Krenak fala da importância dos rios para a vida, pois “nos dá
comida, e essa água maravilhosa amplia nossas visões de mundo e confere sentido
à nossa existência”. O rio tem corpo e se comunica, mas, em nome do progresso, destruímos
o corpo e silenciamos a sua comunicação. A questão é que os rios “urbanos”
agora são esgotos — o rio continua e continuará sendo rio, mas o corpo que nos
alimenta está poluído. Os rios estão sendo mutilados por conta de mineração, madeireiras,
garimpos, apropriação indevida da natureza, entre outros fatores. Consecutivamente,
os biomas estão flagelados. Se continuar assim, estamos fadados a acabar com
nossa própria existência.
Em Cartografias
para depois do fim, como existem várias histórias da criação do mundo, Krenak nos propõe “imaginar cartografias, camadas de mundos, nas quais as narrativas sejam
tão plurais que não precisamos entrar em conflito ao evocar diferentes histórias
de fundação”. Além disso, explicita que “nas narrativas de mundo onde só o
humano age, essa centralidade silencia todas as outras presenças”. É necessário
que tenhamos o olhar crítico: não devemos celebrar “a necropolítica sobre a
vida plural dos povos deste planeta”. Ou seja, devemos criar uma cartografia
afetiva em que haja confluências entre os povos e a natureza.
Em Cidades,
pandemias e outras geringonças, inicia o texto, criticando o uso de telas,
que cria a ilusão de resultado, eficácia, mas não movemos nada, transformando-nos,
a médio-prazo, em espectadores. Também salienta que estamos tão dependentes de maquinários
como nossa extensão a ponto de seguirmos “no piloto automático, devorando o
planeta com fúria”. As cidades funcionam como plataforma do capitalismo e
constituem “como o único destino possível dos humanos”. Qual o destino de quem
não vive nos centros urbanos? Além disso, o conceito de indivíduo está sendo
substituído por consumidor (alguns poucos, claro, são preferenciais na sociedade
capitalista). Se continuar assim, construiremos muros ao redor da natureza? Tudo
que não for urbano pode ser eliminado? E nos convida à reflexão: “como
reconverter o tecido urbano industrial em tecido urbano natural, trazendo a
natureza para o centro e transformando as cidades por dentro?”
Em Alianças
afetivas, distingue dois conceitos: o de cidadania que está na Declaração
Universal dos Direitos do Homem; o de florestania que está atrelado à Aliança
dos Povos da Floresta — que reivindicava o direito e a igualdade de quem vive
na floresta. Krenak foi um dos fundadores, mas percebeu que alianças afetivas
são a chave, pois
pressupõe
afetos entre mundos não iguais. Esse movimento não reclama por igualdade, ao
contrário, reconhece uma intrínseca alteridade em cada pessoa, em cada ser,
introduz uma desigualdade radical diante da qual a gente se obriga a uma pausa
antes de entrar: tem que tirar as sandálias, não se pode entrar calçado.
Nesse conceito, cada pessoa faz
parte de “um fluxo capaz de produzir afetos e sentidos”. É um convite para
pensarmos e nos abrirmos para a pluralidade de culturas. Ademais,
os
povos originários têm outras contribuições ao debate, tanto sobre a pólis
quanto sobre as ideias de natureza, ecologia e cultura. Se formos capazes de
nos abrir a toda essa riqueza, a atividade política será mais uma dimensão da
existência, e não uma ocupação predatória, como tem sido para muitos políticos
do século XXI, o século do neoliberalismo, cuja invenção só tem servido para
aparelhar corpos e constituir servidão.
Em O
coração no ritmo da terra, afirma: “o futuro não existe — nós apenas o
imaginamos”. Em outras palavras, não devemos nos preocupar com o porvir, mas em
vivenciar o agora. Para tal, devemos nos confundir com a natureza, de nos entender
como extensão de tudo, ter a experiência do sujeito coletivo, pois somos filhos
da terra e devemos tratar de
sentir
a vida nos outros seres, numa árvore, numa montanha, num peixe, num pássaro, e
se implicar. A presença dos outros seres não apenas se soma à paisagem do lugar
que habitamos, como modifica o mundo. Essa potência de se perceber pertencendo
a um todo e podendo modificar o mundo poderia ser uma boa ideia de educação.
Não para um tempo e um lugar imaginários, mas para o ponto em que estamos
agora.
Para Krenak, como os humanos
estão interligados à natureza, as crianças deveriam ter uma experiência de
fricção (contato) com a terra, pois o letramento prescinde a sala de aula. Como
não é possível para crianças não indígenas, que os adultos possam
pelo
menos deixá-las em segurança contemplando os próprios pensamentos — que, com
certeza, são luminosos e chegaram ao mundo trazendo maravilhas —, sem
bombardeá-las com argumentos. As crianças irão se associar então a esses belos
pensamentos de maneira criativa e positiva e serão as portadoras, aqui na
Terra, da ancestralidade, um presente que os recém-chegados trazem para nós.
Ademais, ficou alegre por Papa Francisco ter dito que é necessário o resgate de vínculos com a ancestralidade, pois essa fala “contribui para dissolver fronteiras culturais e raciais, e para que a gente possa falar de uma maneira mais respeitosa da diversidade cultural e da pluralidade da vida. Essas ideias deveriam orientar todo o repertório de quem trabalha com educação”. Também pontua que as crianças indígenas respeitam os mais velhos, assim como anseiam seus saberes e se tornarem mais velhas. A conclusão do texto nos faz questionar como estamos ensinando as crianças (para vencerem ou para compartilharem?):
As
crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser
vencedoras, pois para uns vencerem outros precisam perder. Aprendem a partilhar
o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida em que o
indivíduo conta menos que o coletivo. Esse é o mistério indígena, um legado que
passa de geração para geração. O que as nossas crianças aprendem desde cedo é a
colocar o coração no ritmo da terra.
Krenak
tece críticas à forma como a natureza é tratada por nós não indígenas e,
principalmente, pelo capitalismo neoliberal que vivenciamos. Ao
terminarmos a leitura, percebemos que o futuro, na verdade, está na ancestralidade:
a nossa existência depende e está interligada ao todo. Somos uma parte da Terra,
não existe o homem sem a natureza. O que salvará o nosso futuro enquanto
humanidade é o resgate e o conhecimento das ancestralidades — no plural, por
conta da multiplicidade de culturas. Futuro
ancestral nos propõe muitas reflexões, e recomendo a leitura
para debatermos sobre esse assunto. Já leram esse livro ou outro de Ailton
Krenak? Comentem para trocarmos ideia. Um abraço e até o próximo post! o/
Referência:
KRENAK,
Ailton. Futuro ancestral. São Paulo:
Companhia das Letras, 2022.
“Se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já
estava aqui.”
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