A aprendizagem e os prazeres de existir
Hey, sonhadores!
Como dia 08 foi o Dia Internacional da Mulher, o post de hoje é sobre um dos meus livros favoritos: Uma
aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice
Lispector, publicado pela Rocco.
Essa obra foi o meu primeiro contato com essa primorosa escritora. A narrativa
é em terceira pessoa e discorre o relacionamento amoroso de Loreley (ou Lóri)
com Ulisses, mas vou além: na verdade, é sobre Lóri e sua jornada de
autoconhecimento. Para isso, Ulisses se torna a peça-chave para que ela consiga
encontrar o amor-próprio e a valorar a si mesma.
Sobre
a estrutura do romance: começa com uma vírgula e termina com dois-pontos. Causa
estranheza, mas
simboliza
o caráter inacabado da obra, pois é como se entrássemos no mundo de Lóri quando
ela já está iniciada em seu processo de aprendizagem e, mesmo quando terminamos
de ler, o processo de aprendizagem continuasse para a personagem (Falcão, 2019,
p. 11).
Por
não saber como ter prazer na vida e no viver, Lóri deseja a morte, porém
um
sentimento maior do que o de morte a mantém viva, como uma espécie de força
interna invisível. Podemos dizer que esta força que a mantém viva é a vontade
de conseguir viver sem sentir dor e de conseguir ser feliz. No fundo, Lóri é
uma personagem que tem esperança de que a sua vida pode se tornar mais
prazerosa (Falcão, 2019, p. 14).
Lóri
é professora do ensino fundamental, e Ulisses professor universitário de
Filosofia. Os dois se conheceram casualmente e ele se interessou por ela. Ele é
o mediador da jornada de autoconhecimento de Lóri por um motivo: a deseja de
corpo e alma — ele quer um relacionamento amoroso profundo com ela. Para isso,
ela tem que estar pronta, ou seja, inteira e reintegrada de si mesma. Ele já
fez esse percurso anos antes e a incentiva a fazer também. Claro, cada um faz o
trajeto a sua maneira.
Lóri
está apreensiva. Ao mesmo tempo em que quer ser protegida por Ulisses, quer experienciar
a vida, encontrar o prazer de estar viva. Ademais, tem medo de que, ao terminar
a jornada, ele não esteja mais esperando-a como prometeu inúmeras vezes. É um
dilema que toca profundamente, pois a (re)construção do amor-próprio é um
caminho longo e demorado. Um dos ensinamentos de Ulisses, ante a sua hesitação
e seu medo, é
Lóri:
uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve
comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas
vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que
me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida (p.
26).
Pouco
a pouco Lóri se permite encarar o Nada — o descompasso que sente com o mundo (e
consigo mesma?). O seu processo é gradual, percebemos no trecho: “tudo isso ela
já aprendera através de Ulisses. Antes ela evitara sentir. [...] Depois chegara
à conclusão de que ela não tinha um dia a dia mas sim uma vida a vida” (p. 34-35).
Além disso, percebe com Ulisses o que ignorara até então: ela cortou a dor, e
“sem a dor, ficara sem nada, perdida no seu próprio mundo e no alheio sem forma
de contato” (p. 40). Em outras palavras, “em lugar da dor, nada viera senão a
parada da vida dos sentimentos” (p. 42).
O
primeiro passo do autoconhecimento é reconhecer quem é seu maior empecilho.
Lóri, além de descobrir isso, entende que muito do que está aprendendo se deve a
Ulisses, por isso desabafa:
mas
existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a
maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo sobrepor a
mim mesma. [...] Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às
vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece
(p. 53).
Ainda
assim, busca arduamente o seu caminho, o seu melhor modo de ser — “como
explicar que, do longe de onde de dentro de si ela vinha, já era uma vitória
estar semivivendo” (p. 68). A progressão acontece quando percebe que está
sendo. Isso já é um avanço e requer coragem, pois “a coragem de Lóri é a de,
não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer exige coragem”
(p. 79). O lento processo de Lóri pode ser “esquematizado” da seguinte maneira:
Nada →
hesitação → medo → semivivendo → está sendo → viva.
Nesse
ínterim, Ulisses tem a melhor demonstração de afeto e respeito: esperar
a aprendizagem de Lóri. Esperar que ela tenha consciência de si, que aprenda e
perceba os prazeres de estar viva, de existir. A ajuda de Ulisses também
consiste em ouvir o que ela tem a dizer e respeitar o seu tempo e espaço.
Como
devem imaginar, tenho vários trechos favoritos, mas compartilho quatro:
“Não
temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende
porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por
não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido
catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as
catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos
temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a
tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor
diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se
serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra
salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra
amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e
de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para
tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a
outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que
nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o
grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no
que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a
sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido
puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia
possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos
antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando
ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido
um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada
dia.” (p. 48-49)
“Um
dia será o meu mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema
individualidade como pessoa mas seremos um só.” (p.
73)
“[...]
faço poesia não porque seja poeta mas para exercitar minha alma, é o exercício
mais profundo do homem. Em geral sai incongruente, e é raro que tenha um tema:
é mais uma pesquisa de modo de pensar. Este talvez tenha saído com um sentido
mais fácil de aprender. [...] Meus poemas são não poéticos mas meus ensaios são
longos poemas em prosa, onde exercito ao máximo a minha capacidade de pensar e
intuir [...]” (p. 93)
“[...]
alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze
com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na
eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si
mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com que eu sinta uma alegria
modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta
seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem
medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos
também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do
mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos
entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que como, o sono que
durmo, faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesma, amém.” (p.
115)
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres possui
uma prosa poética que transborda e ecoa, principalmente, nas leitoras. A
narrativa é sobre Lóri: a mulher que se reintegra. Ulisses é o seu mediador,
mas o caminho e a jornada, mergulhar em si, é apenas de Lóri. Como não se
identificar com ela? A longa aprendizagem de Lóri para sentir prazer na vida e
no viver explicita o quão árduo é (re)construir o amor-próprio e valorar a si
mesma. É um livro intimista, mas universal.
Além disso, há uns anos adaptaram essa obra para o cinema. O livro dos prazeres (2020), dirigido por Marcela Lordy — classificação: 18 anos. Lóri é uma mulher solitária, cujos relacionamentos ou são efêmeros, ou os permanentes são sem profundidade. Com as provocações de Ulisses, começa a enfrentar a solidão e a experenciar a própria vida. Adorei que o apartamento reflete o estado da (não) existência de Lóri. As duas obras partem do mesmo princípio: o feminino.
O
que aprendemos com a leitura é resgatar a si mesmo (por mais doloroso, árduo e
lento que seja) e continuar apesar de, porque “ser [é] infinito, de um infinito
de ondas do mar” (p.72). Já leram essa
obra-prima? Ou assistiram ao filme? Comentem para trocarmos ideias. Um abraço e
até o próximo post! o/
PS: a canção “Voz longínqua” (da antiga Tchecoslováquia) é mencionada no livro. O blog Desenhares
relata a curiosidade sobre ela e sua relação com o Rio de Janeiro e o romance de
Clarice.
Referências:
FALCÃO,
Michelle Maciel. Da dor ao prazer: o percurso de Lóri em “Uma Aprendizagem ou o livro dos
prazeres”, de Clarice Lispector. 2019. 28 f. Monografia (Licenciatura em
Letras Português) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília,
2019. Disponível em: https://bdm.unb.br/handle/10483/23165. Acesso em: 18 jan. 2026.
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
“Você enfim aprendeu a existir.”
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