Dica de leitura: O médico e o monstro

Hey, sonhadores!
O
primeiro post deste ano é de uma obra que completou 140 anos no dia 05 de
janeiro. O livro é O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson,
publicado pela L&PM. Um grande clássico da literatura inglesa.
Richard
Enfield conheceu Mr. Hyde numa situação pouco agradável e conta a seu amigo
Utterson sobre ele e o quão desagradável é. Gabriel John Utterson fica
intrigado com esse caso, pois Hyde aparece no testamento do dr. Jekyll. Ou
seja, como um homem que não inspira confiança é o único beneficiado do
testamento (“todas as suas posses devem ser passadas para seu ‘amigo e
benfeitor Edward Hyde’”)? Utterson não concorda com os pormenores desse
testamento e, óbvio, vai atrás de respostas para saber quem é o misterioso Mr.
Hyde.
A
princípio, procura o dr. Hastie Lanyon, pois, além de antigo amigo de Henry Jekyll,
são colegas de profissão. Porém descobre que (1) os dois médicos têm
divergências acadêmicas e por isso estão afastados; (2) Lanyon também
desconhece o novo amigo de Jekyll.
Relação
dos personagens da narrativa:
• Utterson
e Enfield são parentes distantes e amigos;
• Utterson
é advogado e amigo de Jekyll;
• Utterson,
Lanyon e Jekyll são amigos de longa data.
Uma
das primeiras descrições de Hyde diz “a face de um homem sem piedade; uma face
que apenas precisava ser mostrada para criar (...) um sentimento de duradouro ódio”
(p. 22). Apesar de não ter nenhuma deformidade aparente, suscita aversão e medo
em quem o vê. Utterson se apresenta a Hyde e, ao seguir seu caminho, o advogado
se pergunta se há algo a mais e se questiona: será “a mera radiação de uma alma
má que transpira e transfigura o corpo em que está contida?” (p. 26)
Em
mais ou menos um ano, Hyde piora seu comportamento, cometendo mais atrocidades,
e Jekyll fica mais temeroso. Consequentemente, aumenta a curiosidade do leitor
para saber qual a relação dos dois personagens. No fim da obra, é explicitado
(tanto a Utterson quanto aos leitores) quem de fato é Mr. Hyde e sua relação
com dr. Jekyll.
Hyde
é homófono de hide (esconder), ou seja, por apresentar um efeito de
monstruosidade tanto na sua aparência como nas suas ações (Drighetti, 2019), é
importante ele estar escondido. O fato de Hyde aparecer normalmente à
noite é por conta de uma descoberta científica pouco (ou nada) ortodoxa de
Jekyll. Por conta disso, Lanyon e Jekyll entram em discordância científica —
continuam amigos, mas cada um no seu canto. As poucas descrições de Hyde que
são feitas nos permite inferir que ele é um monstro. Por isso, Drighetti (2019,
p. 303) explicita:
podemos
relacionar a ideia do “monstro humano” com a figura de Hyde, posto que sua mera
existência já é transgressora, incômoda e demonificada. Semelhantemente, Jekyll
aproxima-se do “indivíduo a ser corrigido”, por ser, de certa maneira,
desobediente ao almejar compreender além do que oferece a literatura médica
sobre a natureza humana.
O conceito-chave de O médio e o monstro é o duplo. Percebemos isso em dois fatores que são intrínseco e extrínseco na obra. Isto é, na relação entre os personagens Jekyll–Hyde e no contexto histórico da narrativa (Era Vitoriana):
• o duplo
do personagem: Jekyll é da alta burguesia, médico
cientista, com prestígio social e boa índole; Hyde é o lado sombrio e reprimido
de Jekyll;
• o duplo
social da Era Vitoriana: Inglaterra é a maior potência
econômica do mundo; desigualdade social dentro do país e o colonialismo nos continentes
africano e asiático (Vasconcelos & Melo, 2019).
Essa
obra é sobre a dualidade humana e social. Dualidade social: avanços
tecnológicos e descobertas científicas da Era Vitoriana em contraponto com a
marginalização que os ingleses vivenciaram mais o colonialismo e suas
consequências que perduram até hoje. Dualidade humana: os indivíduos não são maniqueístas (ou bons, ou maus), porque a bondade e a maldade são indissociáveis no ser
humano. Para além disso, é uma trama que vai abordar o que é socialmente aceito
e a repressão moral que o indivíduo sofre ao longo da sua vida — a complexidade
humana percorre esses dois aspectos. Podemos sempre recorrer ao nosso instinto
mais puro? Para aprofundar a leitura, recomendo a análise do blog ABC Literário
sobre este livro.
Até
hoje é uma das obras mais referenciadas no cinema, na música e na literatura, além das adaptações cinematográficas. Por isso, recomendo três músicas e dois filmes, respectivamente:
• Jekyll
& Hyde – Alanis Morissette feat. Souleye (2012);
• Jekyll
& Hide – Bishop Briggs (2019);
• Jekyll and Hyde – Five Finger Death Punch (2015);
• O médico
e o monstro (2002), dirigido por Maurice Phillips;
• O
segredo de Mary Reilly (1996), dirigido por Stephen Frears.
E aí, sonhadores, já conheciam a
história de O médico e o monstro? Como entraram em contato com essa
obra? Meu primeiro contato foi com o filme de Maurice Phillips, muitos anos
depois li o livro rs. Comentem para trocarmos ideias sobre esse clássico da
literatura. Um abraço e até o próximo post! o/
Referências:
DRIGHETTI,
Bruno. A constituição dos sujeitos e a fragmentação de si em “O Médico e o
Monstro”, de Robert Louis Stevenson. Revista do SEEL, Uberaba, v. 8, n.
2, p. 298-313, dez. 2019. Disponível em: https://seer.uftm.edu.br/revistaeletronica/index.php/sell/article/view/4040. Acesso em: 07 jan. 2026.
STEVENSON,
Robert Louis. O médico e o monstro. Tradução: José Paulo Golob,
Maria Angela Aguiar e Roberta Sartori. Porto Alegre: L&PM, 2017.
VASCONCELOS, José Brendo Cruz; MELO, Francisco Denis. A crítica social no romance: O médico e o monstro na Era Vitoriana. Revista Homem, Espaço e Tempo, Sobral, v. 13, n. 1, p. 161-176, jul. 2019. Disponível em: https://rhet.uvanet.br/index.php/rhet/article/view/314. Acesso em: 07 jan. 2026.
“Ah,
meu pobre Harry Jekyll, se alguma vez já consegui ler a assinatura do diabo numa
face, foi na de seu novo amigo!”
🍂
Uma leitura bem complexa, mas primorosa quando vc percebe o quão imersivo a narrativa se torna. Sensacional a dica! ><
ResponderExcluirEspero que goste da leitura. ❤️
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